quarta-feira, 10 de abril de 2013

Protocolos de indução de lactação – Um alternativa para produção de leite


As falhas reprodutivas são as principais causas de descarte involuntário em propriedades produtoras de leite em todo o Mundo, causando grandes perdas de produção e consequentemente, perdas econômicas. Em um levantamento realizado no Brasil entre os anos de 2000 a 2003 em diferentes rebanhos e com mais de 2000 animais avaliados demonstrou que o descarte por falha reprodutiva representou 27,7% do total de animais em 6 grandes fazendas produtoras de leite(Silva et al., 2004). Segundo Magliaro et al. (2004) esta taxa pode ultrapassar os 45% de animais com idade entre 3 a 8 anos.

Esse descarte está ligado, em muitos casos, à chegada ao final de uma lactação com a fêmea ainda vazia, causando aumento no intervalo entre partos e nos custos operacionais, com redução da lucratividade da operação. Outro ponto relevante ligado ao descarte involuntário das fêmeas é o custo com reposição de novilhas, que pode ultrapassar R$ 2500/animal, representando a segunda maior despesa da exploração leiteira, perdendo somente para custo com alimentação (Heinrichs, 1996).

Esse custo de reposição será sempre amortizado pelo número de lactações que a fêmea propiciar na propriedade. Assim se temos um custo hipotético de R$ 2500 por novilha e essa fêmea tiver 4 ou 5 lactações teremos uma amortização por lactação da ordem de R$ 625 ou R$ 500, respectivamente. Ou seja, o fato de aumentar a vida produtiva de uma vaca em uma ou mais lactações permite uma redução muito grande no custo de reposição e consequentemente aumenta a lucratividade da operação.

Problemas ligados à ambiência/conformto térmico (temperatura VS umidade), falhas sanitárias, nutricionais e na condução dos programas reprodutivos devem ser, constantemente, foco da atenção dos gestores dessas propriedades de leite, para buscar a otimização dos resultados produtivos e reprodutivos. Lembrando que a falha de execução em um destes critérios pode levar ao descarte de animais geneticamente interessantes para produção da propriedade.

Uma ferramenta que pode minimizar de forma drástica estas perdas são os chamados protocolos de indução de lactação, estes se baseiam na combinação de hormônios que mimetizam uma gestação em seu terço final. Momento no qual os níveis circulantes de esteróides estão elevados (estrógeno e progesterona) e é quando ocorre o desenvolvimento da glândula mamária. O protocolo de indução de lactação é uma excelente alternativa para que proprietários mantenham em seus rebanhos animais geneticamente superiores, com bom potencial de produção de leite, gerando novas oportunidades reprodutivas para os mesmos.

No inicio do desenvolvimento dos protocolos de indução os tratamentos eram muito longos, podendo ultrapassar os 100 dias de aplicações diárias de estrógeno e progesterona, porém a sua eficiência ainda era muito limitada. Posteriormente, nos anos 70, Smith e Schanbacher, desenvolveram um protocolo curto com 7 dias consecutivos de estrógeno e progesterona e com uma eficiência de 60% aproximadamente. Tomando por base estes estudos desenvolvidos, associados a um maior conhecimento da fisiologia da lactação, este modelo foi sendo aperfeiçoado com o uso de glicocorticóides e a administração de somatrotopinas (bST), o que melhorou de forma significativa a resposta dos animais tratados (Kesinger et. al. 1998; Magliaro et al. 2004).

A maior parte do desenvolvimento mamário ocorre durante a gestação, sendo controlada inicialmente por hormônios e suas combinações, com quantidades maiores de secreção alveolar e o acumulo destas são encontradas a partir do 7º mês gestacional. Os hormônios esteroides como a progesterona e o estrógeno são importantes para o desenvolvimento dos lóbulos-alveolares, principalmente ao final do período gestacional quando as concentrações destes dois esteroides estão mais elevadas (Akers, 2002). Além destes hormônios, outros como a prolactina, o GH (Hormônio do crescimento) e os glicocorticoides são considerados essenciais, pois em bovinos atuam permitindo ou apenas auxiliando os efeitos mamogênicos dos esteroides e dos fatores de crescimento. Já os glicocorticoides apresentam efeito direto no desenvolvimento mamário.

Fisiologicamente o efeito combinado destas substâncias (glicocorticoides, GH, prolactina e estrógenos) associado à redução das concentrações circulantes de progesterona determinam o inicio da produção de leite. Usando os ruminantes como exemplo, podemos descrever tais alterações da seguinte forma: poucos dias antes do parto, as concentrações de estradiol atingem níveis máximos. Em relação à progesterona, ocorre o oposto, ou seja, cerca de 3 a 4 antes do parto os níveis de caem rapidamente, por consequência da luteólise. Já em relação aos demais hormônios, no momento em que o parto se inicia, há uma grande liberação de GH seguida da secreção de glicocorticoides, concomitante ao aumento sérico da prolactina(Akers, 2002). Tais eventos desencadeiam a secreção da proteína do leite e a síntese de lactose (Barth et al., 1985). As alterações fisiológicas citadas acima estão ilustradas nas figuras 1 e 2 que seguem abaixo.

Figura 1. Perfil sérico circulante de glicocorticoides, GH (hormônio do crescimento), prolactina, progesterona e estradiol durante o pré e o pós-parto em fêmeas bovinas. (Bell, 1995).



Figura 2. Perfil hormonal em vacas durante o período pré-parto. (Senger, 2005).
Tomando por base todos os esses conhecimentos citados acima, referentes à fisiologia envolvida no pré e pós parto e no processo de lactação, os protocolos de indução de lactação foram, então, desenvolvidos a fim de mimetizar o perfil hormonal durante o terço final da gestação. Sendo essa mais uma biotecnologia desenvolvida para levar benefícios aos pecuaristas, uma vez que torna possível induzir, de forma artificial e eficiente, a lactação em vacas não prenhes que, consequentemente, ficariam ociosas no rebanho..

Confirmando os benefícios do protocolo de indução de lactação, podemos usar como exemplo o trabalho desenvolvido por Freitas e colaboradores(2010). Os autores trabalharam com 40 animais da raça holandesa com produção de 9.200 kg de leite na lactação anterior, obtiveram taxa de sucesso do tratamento de 85% (85% dos animais iniciaram uma lactação após o tratamento), corroborando os resultados obtidos por outros estudos, sendo que lactação induzida pelo protocolo é em média 70% de uma lactação normal (Smith e Schanbacker, 1973; Kesinger et al., 1979). Em diferentes estudos desenvolvidos, a composição do leite e o número de células somáticas não apresentaram diferença quando comparado aos grupos controle, sem indução de lactação (Freitas et al., 2010).

Comparando os protocolos de indução de lactação com diferentes ésteres de estradiol (cipionato vs benzoato), os animais tratados com benzoato de estradiol apresentaram melhor desempenho produtivo aos 324 dias de lactação. Sendo a produção média / animal de 18,9 kg / dia para o grupo cipionato vs 21,8 kg / dia para o grupo benzoato (tabela 1). Essa diferença na produção de leite entre os grupos tratados com distintos estrógenos se deve ao maior sinergismo entre a progesterona e as taxas mais elevadas benzoato de estradiol, resultando em melhor desenvolvimento do lóbulo alveolar dos animais deste grupo (Freitas, et al., 2010).

Tabela 1. Percentual de resposta ao tratamento, máxima produção diária de leite, produção total de leite em 324 dias e percentual de produção induzida em comparação a lactação anterior. (Adaptado de Freitas et al., 2010).



Outro ponto muito vantajoso do uso dos protocolos é o fato de as vacas após o tratamento e inicio de uma nova lactação retornarem a atividade reprodutiva com capacidade de concepção. Diferentes pesquisadores relatam sucesso reprodutivo em vacas e novilhas após a indução de lactação, com taxas de concepção variando de 30 a 56%, de acordo com o histórico prévio das mesmas (Collier, Bauman e Hays, 1975; Fulkerson 1978; Jordan et al., 1981; Mellado et al., 2006; Freitas et al., 2010). Esse fator é de alta relevância, pois permite que animais que seriam inicialmente descartados voltem a produzir com possibilidade de emprenhar novamente.

Para se obter sucesso nos protocolos vários pontos devem ser analisados antes de tratar os animais com os protocolos de indução à lactação, tais como o estado de sanidade do animal, período seco, condição nutricional, manejo prévio e durante o tratamento. Abaixo seguem algumas considerações:

- Estado sanitário da vaca: devemos lembrar que o protocolo de indução de lactação é um tratamento que mimetiza as condições hormonais do final da gestação e parto, culminando com uma lactação subsequente. Assim ao avaliar os animais, caso tenhamos uma vaca que não se apresente em condições consideradas ideais para um parto normal, não devemos submetê-la ao protocolo de indução de lactação, ou seja, uma vaca que apresente qualquer problema sanitário que possa comprometer a lactação não deve ser tratada.

- Período seco: é sabido que devemos respeitar um período seco de no mínimo 60 dias entre as lactações oferecendo o descanso e a “renovação” da glândula mamária. Esse mesmo período deverá ser respeitado nas fêmeas submetidas ao protocolo. Além disso, devemos também evitar vacas que estejam secas há longos períodos, pois os resultados podem ficar comprometidos nesses animais (baixa produção de leite).

- Condição nutricional: assim como apontado nas questões sanitárias, as vacas devem ser avaliadas quanto as suas condições nutricionais antes do início do tratamento, evitando empregar tratamento em animais com baixa condição corporal. Além disso, durante os dias de tratamento as vacas devem ser alimentadas dentro dos padrões da propriedade como se ela estivesse para entrar em produção (pré-parto), passando pelo período de adaptação de dieta e iniciar a lactação já com a dieta ajustada.

- Manejo durante o tratamento: as fêmeas em tratamento devem ser adaptadas ao manejo de ordenha, especialmente aquelas que apresentam maiores dificuldades.

Assim temos com principais vantagens do uso dos protocolos de indução de lactação:

- Induzir lactação em vacas secas que seriam inicialmente descartadas;

- reduzir os custos com reposição de vacas descartadas por causas involuntárias;

- aumentar a vida produtiva da fêmea, diluindo o custo relativo dos animais;

- programação de produção em épocas de melhor remuneração do leite, especialmente na entre safra;

- possibilitar a concepção de vacas que seriam descartadas após o inicio de uma lactação induzida, aumentando de forma consistente a longevidade produtiva das mesmas;

Por Departamento de Reprodução Animal Ourofino.

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