terça-feira, 16 de abril de 2013

10 Perguntas e Respostas Sobre Anestro Pós-Parto em Bovinos Leiteiros


O anestro pós-parto influencia negativamente a fertilidade das vacas leiteiras. Essa condição é caracterizada pela ausência de comportamento de estro (cio) e pode refletir algumas condições inadequadas de manejo (principalmente nutricional) e/ou condições patológicas (por exemplo, doenças crônicas debilitantes ou uterinas, além de alterações dos ovários).

No intuito de oferecer ao produtor informações práticas relacionadas com o anestro pós-parto, a seguir são apresentadas alguns dados sobre o tema, no formato "perguntas e respostas" utilizado neste espaço em outras oportunidades.

Um dos maiores problemas reprodutivos das vacas leiteiras é a retomada da atividade ovariana pós-parto, traduzida pela ausência ou atraso de cio fértil. Essa condição, chamada de anestro, é responsável pelo prolongado intervalo entre partos (acima de 18 meses) dos rebanhos leiteiros brasileiros, muito longe do ideal que é de 12 a 14 meses.

A seguir, são apresentadas algumas informações sobre o tema que, esperamos, possam contribuir para uma melhor compreensão do assunto .

1. Que é anestro pós-parto?

De forma geral, anestro é um termo genérico utilizado para definir a ausência de manifestação periódica do cio (estro). O anestro pós-parto define a condição de uma vaca que não manifesta cio após um período voluntário de espera (geralmente 60 dias pós-parto). Em condições adequadas de manejo, esse período é suficiente para retornar à normalidade ovariana e uterina decorrente das alterações fisiológicas provocadas pela gestação e parto.


2. Quais os sintomas apresentados pela vaca em anestro?

A vaca não manifesta cio. Isso ocorre porque não está ciclando ou porque o cio não foi detectado (embora esteja ciclando). Em outras palavras, no anestro verdadeiro, a vaca não apresenta cio porque seus ovários estão inativos. Na maioria das vezes, no entanto, a vaca tem atividade cíclica normal, mas não é detectada em cio, devido a um comportamento estral fraco ou ausente, ou a erros na observação do cio.

3. Como pode ser identificado o anestro?

Além da ausência de manifestação do cio, o exame dos ovários permite complementar o diagnóstico de anestro. Os animais nessa condição apresentam ovários inativos ou afuncionais, sendo caracterizados como pequenos, duros e lisos (PDL). Esse exame deve ser realizado pelo veterinário, utilizando a palpação retal ou, para maior eficiência, a ultrassonografia.

O produtor pode ainda estabelecer a ciclicidade dos animais medindo a concentração de progesterona (no leite ou no sangue). Duas amostras, coletadas com intervalo de 10 dias, são suficientes para dar o diagnóstico de anestro. Isto é: quando as duas amostras apresentam níveis de progesterona abaixo de um valor limite (por exemplo, 1 ng/ml no sangue) significa que a vaca está em inatividade ovariana.

Os cistos luteínicos estão associados ao anestro, mas não é possível diferenciar entre cistos foliculares e luteínicos apenas com base no comportamento. Os cistos luteínicos possuem uma parede mais espessa que somente os veterinários mais experientes são capazes de detectar por palpação retal. Um alto nível de progesterona, no leite ou plasma, é indicativo de cisto luteínico.


4. Que porcentagem do rebanho pode ser afetada pelo anestro?


Na maioria dos rebanhos leiteiros bem manejados, mais de 90% das vacas ovulam até o dia 40 pós-parto. Nos bovinos com bezerro ao pé, esse índice é reduzido em até 60%, devido ao efeito supressor da amamentação sobre a retomada da atividade ovariana pós-parto.

5. Quais as perdas para o produtor?

O prolongamento do período de anestro pós-parto leva a perdas econômicas importantes por aumentar o intervalo parto-concepção e, consequentemente, comprometer a eficiência reprodutiva, impedindo que se atinja a meta de um parto/vaca/ano.

Quando o intervalo entre partos se estende acima dos 365 dias, as perdas aproximadas estimadas variam entre US$1 a US$3/dia adicional, dependendo do nível de produção do rebanho.

6. Em que raças leiteiras o anestro pós-parto é mais comum?

Existem poucos estudos consistentes comparando as sub espécies taurina e zebuína de aptidão leiteira. Parece ser que as raças zebuínas ou cruzadas com zebu apresentam um maior período de anestro (devido à presença da cria durante a ordenha).

Vacas com alta produção de leite são mais suscetíveis ao desenvolvimento do anestro prolongado.


A seleção de vacas para alta produção leiteira tem sido acompanhada por um decréscimo na eficiência reprodutiva e nas concentrações sanguíneas de insulina no pós-parto. A insulina provoca um efeito estimulador na esteroidogênese ovariana, de forma que baixos níveis de insulina estão associados a falhas na ovulação.

7. A longevidade reprodutiva influencia a incidência do anestro?

O número de parições tem influência na duração do período de anestro, sendo que com o decorrer das parições durante a vida útil da vaca, a duração do anestro tende a diminuir.

8. A incidência de anestro é mais comum em alguma região do país por conta de questões climáticas ou de relevo?

A fertilidade permanece normal quando a temperatura fica dentro de um limite compatível com os mecanismos termoreguladores do animal.

Temperaturas fora da zona de conforto térmico (variação entre 16 e 27oC, segundo a raça) podem afetar o desempenho reprodutivo e causar anestro. A produção de leite nas regiões mais quentes e úmidas do Brasil demanda raças mais adaptadas e/ou investimentos em instalações para modificar o ambiente.

9. Qual a relação entre o anestro e o escore corporal?

O escore corporal pós-parto é um reflexo do estado nutricional pré-parto, sendo que a função reprodutiva é mais afetada pelos níveis de energia antes do parto do que depois deste.

Cada vaca possui uma massa corporal ideal para expressar seu potencial, em termos de fertilidade. Quando essa massa declina, ou aumenta além de certos limites, a reprodução é afetada.

Existe um peso mínimo abaixo do qual a vaca não concebe ou para de ciclar, o que ocorre quando a fêmea bovina perde de 20 a 30% de seu peso adulto.

Mesmo perdendo muito peso, algumas vacas começam a ciclar normalmente no início da lactação, desde que apresentem boa condição corporal ao parto. Porém, esses cios são, em geral, de baixa fertilidade. Isto é: a vaca não emprenha quando é inseminada ou acasalada com touro.


10. Como evitar e como tratar o anestro pós-parto?

Primeiramente, é preciso descartar falhas na detecção do cio, pois na maioria das vezes estas são as principais causas do anestro. É preciso dedicar tempo suficiente à observação das manifestações externas do cio (mesmo as secundárias). Ajuda bastante quando existe uma ficha zootécnica individual com as informações precisas dos eventos produtivos, reprodutivos e sanitários.

O controle do cio e da ovulação por meio do uso de prostaglandinas, hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH) e progestágenos, pode atenuar alguns dos problemas da detecção do cio, ao definir o período em que o criador pode esperar para observar sua manifestação. O anestro verdadeiro é influenciado por fatores relacionados com a nutrição, condição corporal, amamentação, lactação, condição do parto (distócia), raça, idade, estação, patologias uterinas e enfermidades decorrentes.

A melhora do estado energético das vacas leiteiras durante o período de transição e início da lactação pode reduzir o período de anestro associado à falta de pulsos de LH. Nas vacas que amamentam seus bezerros, uma melhora no estado energético e/ou redução da frequência com que se permite que os bezerros mamem pode aumentar a freqüência dos pulsos de LH e reduzir o tempo para a primeira ovulação.

Ainda, pode-se usar um tratamento hormonal para estimular as vacas anovulatórias, principalmente se combinado com aumento da suplementação energética em vacas leiteiras e suplementação energética e/ou redução da freqüência de amamentação nas vacas que amamentam seus bezerros.

Os melhores resultados para tratamento do anestro verdadeiro têm sido obtidos com o uso de progesterona ou progestágenos, combinado com uma injeção de estradiol no início do tratamento e uma injeção de gonadotrofina coriônica eqüina (eCG) no momento da retirada da fonte de progesterona.

No caso de cistos ovarianos como causa do anestro, a administração de GnRH é o tratamento mais adequado. Ele age estimulando a hipófise a liberar LH e FSH.

Dependendo do tipo de cisto, e possivelmente da dose de GnRH, alguns folículos císticos podem ser induzidos a ovular. Após o tratamento, 60 a 80% das vacas entrarão no cio entre 18 e 23 dias após a injeção. Uma vez que tanto os cistos foliculares como os luteínicos respondem de maneira semelhante a esse tipo de tratamento, a diferenciação é desnecessária.

Outra possibilidade é aplicar gonadotrofina coriônica humana (hCG) pela via intravenosa. O hCG é um hormônio com forte atividade luteinizante.

Finalmente, alguns estudos indicam que a exposição, constante ou intermitente, das vacas à presença de touros após o parto diminui a duração do período de anestro.
Fonte: www.aptaregional.sp.gov.br Autor: Rafael Herrera Alvarez

Med. Vet e Zoot., Dr., PqC do Polo Regional Centro Sul-DDD/APTA/SAA

rherrera@apta.sp.gov.br


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