terça-feira, 12 de março de 2013

APTA/São Paulo: Aplicação de Lodo de Esgoto e Composto Orgânico no Canavial


COM APLICAÇÃO DO LODO DE ESGOTO E COMPOSTO ORGÂNICO DIMINUI EM ATÉ 60% OS CUSTOS COM FERTILIZANTES NA CANA E AUMENTA A PRODUTIVIDADE E A VIDA ÚTIL DO CANAVIAL

Depois de tratado, o esgoto doméstico se transforma em lodo. Se descartado de forma incorreta, o material pode poluir o meio ambiente, por possuir patógenos, metais pesados e matéria orgânica em sua composição. A maneira correta de descarte é em aterros sanitários, o que gera altos custos para as Estações de Tratamento – estima-se que 50% dos custos. Além disso, gera um passivo ambiental e constitui um desperdiço de matéria orgânica e nutriente que poderiam ser aproveitados em solos agrícolas. Uma alternativa é aproveitar esse material, rico em nitrogênio e fósforo, na agricultura. Em pesquisa realizada pelo Polo Centro-Sul, unidade regional da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), ficou constatado que o uso do lodo de esgoto e composto de lodo de esgoto nos canaviais diminui em até 60% os custos com fertilizantes. Em experimentos realizados pela APTA em Piracicaba, os pesquisadores observaram aumento de até 30% na produtividade da cana-de-açúcar, além da extensão da vida útil do canavial.

A Agência tem estudo inédito no País que confronta a diferença entre o lodo de esgoto in natura e o composto – que passa por processo de compostagem e é misturado com palha de árvores trituradas e usado na cultura da cana.

Rico em nitrogênio e fósforo, o lodo de esgoto, quando aplicado de forma correta nas lavouras de cana-de-açúcar pode diminuir em até 60% os custos com fertilizantes nos canaviais. Isso porque se utilizar doses agronômicas dos resíduos, não é necessário que os produtores apliquem fertilizantes nitrogenados e fosfatados no solo. A única aplicação seria de potássio, nutriente encontrado em baixa quantidade nesse adubo orgânico. “A incorporação de lodos e derivados proporciona melhorias nas condições físicas do solo com a adição de matéria orgânica e de nutrientes e micronutrientes de plantas, aumentando a produtividade de culturas agrícolas, como a cana-de-açúcar”, afirma a pesquisadora da APTA, Edna Bertoncini. Em valores reais, a economia gira em torno de R$ 450 a R$ 550 reais, por hectare.

Nos estudos na APTA ficou comprovado que o lodo pode estender a vida útil do canavial, por aumentar a produtividade. “Em experimento realizado em Piracicaba, interior de São Paulo, houve aumento de até 30% na produtividade dos canaviais, mas o mais interessante é a menor redução na produção durante os cortes da cana. Geralmente depois do primeiro corte, a cana vai diminuindo a produtividade, até ser necessária a renovação do canavial, que deve ser feita no quinto ou sexto corte, às vezes até menos em função da colheita mecanizada, sistema atualmente adotado”, afirma Bertoncini. Para se ter ideia, na segunda soqueira, a cana produz cerca de 100 toneladas por hectare, nos canaviais em que foi aplicado o lodo e o composto, a produtividade chegou a 125 toneladas. No corte seguinte, a cana-de-açúcar produz 65 toneladas, a que foi aplicada lodo e composto, chegou a produzir 79 toneladas.

A quantidade de açúcar na cana também aumenta de 0,5% a 1%. O valor parece baixo, mas em grandes áreas – como geralmente acontece na cultura– o montante é significativo. “É importante ressaltar que o produtor agrícola recebe da usina pelo teor de açúcar presente no caldo”, afirma a pesquisadora da APTA. Bertoncini garante que seguindo a Resolução nº 375 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) não há qualquer risco de contaminação da cana-de-açúcar e seus produtos devido à aplicação do lodo. “Em todos os estudos que temos realizado até o momento em solos sob condições tropicais não foi observado aumento no teor de metais pesados no caldo da cana, não representando risco de contaminação na cadeia alimentar”, afirma.

O ineditismo da pesquisa da APTA com o lodo de esgoto se dá na comparação entre o lodo in natura e o composto, que passou pelo processo de compostagem juntamente com palha de árvores oriundas de poda urbana, triturada. De acordo com a resolução do CONAMA só pode ser aplicado em solos agrícolas o lodo de Classe A e o de Classe B – quando passado pelo processo de compostagem ou outro processo para remoção de patógenos. Dessa forma, evita-se o risco de contaminação do solo, da cultura e das águas subterrâneas. A classificação do lodo se dá pela quantidade de patógenos encontrados.

“O teor de água nos compostos e lodo foi de 58% e 70%, respectivamente, o que facilita a aplicação do composto, reduz custo de transporte e aumenta o raio econômico da aplicação. No composto também houve diminuição de 58% do valor de condutividade elétrica, reduzindo riscos de salinização do solo, além de ocorrer esterilização de ovos de helmintos e cistos de protozoários”, explica a pesquisadora da APTA.

Desde 2006, o uso de lodos sanitários foi restringido pelo CONAMA no que concerne aos limites máximos permitidos de metais pesados e patógenos, além da proibição do seu uso em hortaliças e raízes e tubérculos, como uma medida preventiva de saúde pública. “A maioria dos lodos de esgotos produzidos no Brasil não se enquadra na categoria possível de uso agrícola, necessitando de pós-tratamento para tal uso, e a compostagem de lodos sanitários é indicada como um dos processos para melhoria da qualidade do lodo, de acordo com a Resolução nº 380 do CONAMA”, afirma Bertoncini.

Uma cidade com cerca de um milhão de habitantes pode gerar em torno de 150 toneladas/dia de lodo, caso tenha 100% de seu esgoto tratado. Mesmo com a economia e vantagem, apenas 3% do lodo gerado são destinados à agricultura no Brasil. Nos Estados Unidos esse total chega a 65%. Esse quadro se explica pelo fato de o tratamento do esgoto doméstico ser prática recente no Brasil, diferentemente dos outros países.

Decomposição do lodo no solo

O manejo inadequado do lodo pode proporcionar perdas de nitrogênio e de carbono no solo. Para que esse problema não ocorra, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (CETESB) definiu, para o Estado de São Paulo, pelo menos 30% de degradação do carbono do solo para gás carbônico em até 80 dias. “Essa medida foi adotada de modo que não haja acúmulo de material orgânico recalcitrante no solo. Contudo, a norma libera resíduos que apresentam mais de 100% de decomposição no solo, isto é, sua adição ao solo degrada inclusive a matéria orgânica nativa, que é prejudicial à fertilidade de solos como os nossos, pobres em matéria orgânica”, afirma Bertoncini.

De acordo com a pesquisadora da APTA, o composto de lodo apresentou maior taxa de decomposição do material orgânico no solo, mas em um período de tempo maior, isto em função da melhoria da qualidade do resíduo proporcionado pelo processo de compostagem e pelo maior grau de humificação do composto orgânico, que libera lentamente os nutrientes no solo. Mas somente na maior dose de lodo utilizada, cerca de 20 vezes maior a dose recomendada de lodo para suprir a necessidade de 100 kg de nitrogênio por hectare, o valor da taxa de decomposição do lodo foi próximo ao valor exigido pela CETESB, indicando que para o uso de doses agronômicas do lodo no solo este valor estipulado por norma não será atingido, sendo necessárias talvez alterações na norma ambiental vigente.

Mais informações: http://conference.arenainterativa.com.br/sigera2013/

Texto: Fernanda Domiciano

Assessoria de Imprensa – APTA

19 – 2137-0616/613

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