terça-feira, 7 de agosto de 2012

Consanguinidade em Rebanho Leiteiro


Qual é a melhor maneira de definir consanguinidade?

A consanguinidade é uma medida (ou medida prevista) na relação de parentesco entre dois indivíduos relacionados, ou seja, é a união de indivíduos mais aparentados do que a média da população. Tecnicamente, é a percentagem de genes que estejam idênticos na descendência, o que significa que um animal reparte uma cópia de genes de ambos progenitores, pai e mãe, e que pode ser rastreado através do pedigree de um ascendente comum.


Qual é a diferença entre "consanguinidade" e "consanguinidade dentro de linhagens genéticas"?

Tecnicamente são a mesma coisa. "Consanguinidade dentro de linhagens genéticas" descreve o foco em determinadas linhagens (ou animais específicos), que tenham características de interesse particular. "Consanguinidade dentro de linhagens genéticas" é um termo geralmente associado a um acasalamento planeado, ou um esforço consciente de aumentar a probabilidade de ocorrência de genes específicos, buscando um determinado resultado. 

Um bom exemplo disso são os cavalos de corrida. "Consanguinidade" é basicamente a mesma coisa, no entanto, geralmente tem uma conotação negativa associada ao termo, porque muitas vezes acontece sem planeamento. "Consanguinidade" é um termo comumente usado para descrever os efeitos negativos numa raça ou efectivo, de acasalamentos com estreito grau de parentesco.

Por que razão existe preocupação com a consanguinidade?

Como os animais podem ficar cada vez mais aparentados, a depressão pela consanguinidade ocorre para certas características, o que significa que o desempenho é menor do que o esperado. O que não é o ideal, pois estará contrariando o potencial do ganho genético.
A tendência de consanguinidade está aumentando? Estamos a atingir um nível crítico?

Um dos equívocos mais comuns sobre consanguinidade é que existe um nível crítico e que o mesmo não deve ser ultrapassado. Não há nenhuma pesquisa que sustente esta afirmação, ao contrário dos efeitos da depressão por consanguinidade, que parecem ser lineares de acordo com a tabela abaixo:


Caracter Cada 1% consanguinidade
Leite menos 37 kg/lactação
Gordura menos 1,2 kg/lactação
Proteína menos 1,2 kg/ lactação
Idade ao primeiro parto mais 0,4 dias
Intervalo entre partos mais 0,3 dias
Longevidade menos 13 dias
Rendimento Liquido Vitalício menos US$ 23,11
Portanto, um aumento de 6% para 7% na consanguinidade tem o mesmo "custo" que entre 1% e 2%.


Então significa que com menos US$ 23 de rendimento, devo evitar a consanguinidade?

Não, o que precisamos fazer é maximizar o lucro. Com US$ 23 de custo na vida útil por cada 1% de consanguinidade, é fácil sermos tentados a reagir e a evitar a consanguinidade a qualquer custo. Mas lembre-se, que uma das razões para algumas raças estarem a ficar mais consanguíneas é porque existem alguns muito bons genes na população, os quais têm também um impacto altamente favorável na produtividade e no lucro! Simplificando, se temos uma vaca para inseminar e três opções de touros, sendo um deles "outcross", ou sem relação de parentesco com a vaca, mas geneticamente inferior, e outro sendo altamente consanguíneo, mas sem dúvida um fora-de-série genético, torna-se relativamente fácil ver como a percentagem de consanguinidade é apenas um factor a considerar.

Tabela 2. Mérito Liquido, Consanguinidade e Mérito Liquido Ajustado pelo nível de consanguinidade para um acasalamento específico



No exemplo acima, o AltaCASCADE e o AltaLEO estão muito próximos em mérito genético. No entanto, ao considerar em particular, o acasalamento de uma vaca com cada um destes dois touros, devemos ponderar como o nível de Mérito Liquido se irá ajustar com base na consanguinidade resultante de cada acasalamento. Neste exemplo, o AltaCASCADE será reposicionado para ter um melhor resultado do que o esperado, porque o nível de consanguinidade com a vaca de interesse é de 3 pontos percentuais menor do que a do AltaLEO. Este exemplo mostra porque é que se recomenda o "emparelhamento por pedigree", pois o mesmo contempla e realiza esses ajustes.
A taxa de consanguinidade vem aumentando?

Sim, a taxa de consanguinidade tem aumentado desde a adopção generalizada da técnica de Inseminação Artificial nas décadas de 1950 e 1960. Isso não significa necessariamente algo de mau em si mesmo. Muito poucos produtores trocariam as vacas produtivas de hoje pelas vacas que tinham há 25 anos atrás, mesmo que as vacas de hoje sejam mais consanguíneas. Isto acontece porque as vacas actuais são muito mais eficientes e rentáveis, pois através do uso da técnica de Inseminação Artificial aceleramos a difusão de melhores genes.


O uso de touros genómicos não estaria acelerando mais a taxa de consanguinidade?

Sim, estará a fazê-lo ao nível da raça, mas também estará aumentando de uma maneira incrível o progresso genético! Portanto, a nossa meta não deve ser a busca da vaca "menos consanguínea", mas sim o da vaca mais lucrativa. Nos últimos 25 anos, criamos mais consanguinidade, mas também mais produtividade - o mesmo é verdade actualmente com a genómica, exceptuando que agora devemos esperar ambos (consanguinidade e ganho genético), aumentando em taxas duas a três vezes superiores ao que vivenciamos no passado.


Isso não significa que em breve podemos atingir na raça níveis de consanguinidade de 10%?

Sim, e enquanto os geneticistas estão trabalhar em formas de equilibrar o nível de consanguinidade com o ganho genético, em larga escala ao nível da raça, no seu efectivo você apenas se deve preocupar com a consanguinidade versus o ganho genético.
O que significam nas provas, os índices "EFI" e "GFI"?

EFI é a "Consanguinidade Futura Estimada". Para se obter o índice EFI, parte-se duma amostragem aleatória de animais da raça e considera-se que um determinado touro foi acasalado com cada um desses animais; é calculado então o nível teórico da consanguinidade de cada acasalamento e depois calculada a média da amostra inteira. Enquanto isso, para o "GFI" faz-se a mesma coisa, no entanto com mais especificidade, pois contempla apenas a população que passou pela avaliação genómica e assim é possível verificar exatamente qual é o perfil genético de um animal, ao invés de supor quais os genes que ele herdou do seu pai e mãe. Nenhum destes índices é particularmente útil para cada efectivo específico.


Por que GFI e/ou EFI não são indicadores perfeitos para medir a consanguinidade num efectivo?

Um touro que seja "outcross" para o seu efectivo pode ser altamente consanguíneo para outro. Peguemos no exemplo da Tabela 2, acima: o AltaLEO (6,1% EFI) é um AltaMETEOR X NIFTY, e o AltaCASCADE (6,3% EFI) é um DOMAIN X RAMOS. Embora a EFI deles seja similar quando acasalados com animais na média da raça, os resultados podem ser bastante diferentes para o seu e também para o efectivo do seu vizinho. Se o AltaMETEOR foi muito utilizado há um ano atrás nas fêmeas do seu efectivo, mas você nunca usou DOMAIN ou RAMOS, o AltaCASCADE será evidentemente considerado "outcross" para a sua exploração, ao contrário do que sucede com o AltaLEO.
Em que características tem efeitos a consanguinidade?

Aumentos de consanguinidade são especialmente prejudiciais nos caracteres de saúde, e têm também algum impacto sobre os caracteres de produção. Se não estivéssemos medindo e selecionando para esses caracteres, estaríamos muito mais preocupados com os efeitos negativos da consanguinidade. No entanto, como estamos a seleccionar para coisas como Fertilidade das Filhas, Vida Produtiva, Células Somáticas, Facilidade de Parto e Nados-Mortos, estamos alcançando ganhos genéticos positivos para essas características mais do que compensando os efeitos negativos da consanguinidade. Há 15-20 anos atrás, a situação era muito diferente porque ainda não se selecionava para esses caracteres. Geneticamente, nós estávamos a ir na direção errada em termos de características de saúde e fertilidade, devido à consanguinidade e às correlações genéticas entre esses caracteres e outros para que estávamos a selecionar.


A genômica tem ajudado a encontrar mais touros "outcross" dentro da raça?

A seleção genómica ajudou-nos a encontrar touros de famílias de vacas que antes eram desconhecidas. Mesmo encontrando alguns touros menos consanguíneos, até agora a genómica ainda não conseguiu realmente diversificar a raça. Isto porque pela definição da genómica, nós estamos a seleccionar para partes do genoma que foram identificados por terem um efeito positivo na rentabilidade. Ao fazer isso, já não estamos selecionando pelos animais em si, mas por genes específicos (ou SNP´s), e a seleção genómica favorece indivíduos que maximizam o número de bons genes.
Que conhecimento adquirido através da genómica, pode ajudar-nos com a consanguinidade?

Se dois animais parecem não ter parentesco no papel (através de uma análise de pedigree), não significa necessariamente que eles não compartilhem muitos genes! Da mesma forma, dois animais que tenham parentesco entre eles podem ser significativamente diferentes ao nível (genómico) genético, o que significa que herdaram muitos genes diferentes. Enquanto um animal individual herda aproximadamente 50% dos seus genes da sua mãe e 50% do seu pai, as percentagens podem divergir muito dos 25% de cada um dos avós, porque os genes são geralmente herdados em blocos, e não individualmente. Com a genómica podemos fazer acasalamentos que sabemos não ter parentesco com base no perfil genómico, ao invés de acasalamentos que predizem não ter parentesco com base no pedigree.

Isso significa que há uma nova definição para "outcross"?

"Outcross" é uma palavra extremamente difícil de definir: seria um animal que tem um baixo nível de parentesco com a população. No entanto, tal como descrito acima, a população que a maioria dos produtores deve considerar é a sua própria população de animais, enquanto os geneticistas geralmente remetem para a raça a nível global mundial, como população. Portanto, a definição não muda, mas a aplicação muda.
Existem programas de emparelhamento, ou algo específico que possa ser usado ​​para minimizar a consanguinidade?

Há dois factores fundamentais para minimizar a consanguinidade:

1) A exacta e correcta identificação de animais

2) O uso de uma ferramenta, como o AltaMate (programa de emparelhamentos da Alta), para avaliar o impacto da consanguinidade em cada acasalamento

Nenhum sistema de acasalamento irá minimizar a consanguinidade, sem uma identificação exacta e correcta dos animais. Por exemplo, se você estiver a inseminar uma vaca que você "acha" (com base nos registos, brinco, etc...) que é uma filha do AltaBAXTER, mas na verdade ela é uma filha do AltaESQUIRE: o AltaIOTA seria um touro extraordinário para usar nela mas, na verdade, esse acasalamento estaria a gerar uma consanguinidade substancial no animal resultante da inseminação, porque na verdade você acabou de usar o AltaIOTA numa filha do AltaESQUIRE (ambos os touros são filhos do O-Man).

Outros esquemas que tentam fazer a prevenção da consanguinidade na raça Holstein, parecem fáceis de implementar, mas nunca eliminam a consanguinidade; ainda assim, fazem melhor do que a não existência de nenhum critério. Para além disso, esses esquemas determinam que você tenha que usar um touro de uma "determinada linhagem" em cada geração, o que poderá limitar consideravelmente o progresso genético que você poderia fazer, porque dessa forma você não estará a usar os melhores touros para seus objectivos de melhoramento genético.


Que ferramentas temos ao nosso dispor para evitar a consanguinidade?

Uma das coisas raramente consideradas nestas discussões, é que nas previsões genéticas já se considera a consanguinidade. O AIPL (Animal Improvement Programs Laboratory) considera a consanguinidade média das actuais filhas de um touro em relação ao nível de consanguinidade futura estimada que uma filha possa ter, e faz ajustes com base nesses números para o valor de uma prova oficial. Assim, um touro que se espera ter baixo grau de consanguinidade em relação à população, obtém um ligeiro aumento na sua PTA, enquanto um touro que possua alto grau de parentesco vê sua PTA reduzida. O AltaMate apresenta duas excelentes opções.

Em 1º lugar, a forma tradicional de emparelhamento com a escolha de um touro para a 1ª, outro para 2ª, e ainda outro para uma possível 3ª opção, funciona bem porque, contabilizando os conhecidos impactos da consanguinidade apresentados antes, e não recomendando touros acima de um determinado nível, o programa permite que você defina o limite máximo admissível para a consanguinidade.

Uma outra opção, é recomendável para efectivos maiores e que têm um número significativo de vacas para inseminar dentro de cada lote. Esta opção, chamada "Pen-Mate", olha para as coisas sob a perspectiva oposta. Ao contrário de tentar encontrar um acasalamento perfeito para uma vaca em particular, o sistema irá determinar qual é o touro presente no seu contentor que NÃO DEVE SER USADO numa vaca específica. Isto torna as coisas mais fáceis, pois quando você tem 5 vacas para inseminar num lote, e prefere não usar nenhum dos 5 diferentes touros que foram recomendados. Em vez disso, o "Pen-Mate" orienta-o para a utilização de um touro que pode ser usado com segurança em todas as 5 vacas, e ainda garantir que os efeitos negativos da consanguinidade sejam minimizados. Desta forma, você pode preparar cinco pistolês com o sêmen do mesmo touro e ir para o lote sem se preocupar com que vaca está a inseminar.


Por: Nate Zwald, Senior Director Global Strategy & Marketing e AltaGenetics

0 comentários

Postar um comentário