segunda-feira, 9 de julho de 2012

A Valorização do Hectare e Novas Fronteiras Produtivas


A alta do preço da soja observada no último ano fez o valor da terra agrícola decolar rumo ao recorde no Paraná. As fazendas do estado, que até a última safra lideravam a produção nacional de grãos, estão entre as mais caras do país, aponta levantamento da Informa Economics FNP. Segundo a consultoria paulista, um hectare (equivalente a cerca de 10 mil metros quadrados) altamente produtivo e voltado ao cultivo de grãos chega a custar R$ 28 mil no Centro-Oeste e Oeste paranaense, por conta da fertilidade do solo.

O valor é recorde no estado e o segundo maior do Brasil, conforme a pesquisa. Está atrás apenas de Chapecó (Santa Catarina), onde a terra custa R$ 32 mil. Com o preço atual, uma propriedade de tamanho médio (entre 35 e 40 hectares) vale de R$ 980 mil a R$ 1,1 milhão, o suficiente para comprar um imóvel em bairro nobre na capital paranaense.

A variação nos preços de propriedades rurais chega a superar inclusive a valorização de apartamentos residenciais de alto padrão em Curitiba, onde está um dos metros quadrados mais caros do país. No último ano, o preço médio de apartamentos novos na capital subiu 10%, segundo a Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (Ademi/PR). Já em Guarapuava (Campos Gerais), o valor terra teve a maior alta porcentual (34%) no mesmo período. “Com R$ 1 milhão seria possível investir em um apartamento de luxo, de três quartos, no Batel ou em bairros como Água Verde e Ecoville”, compara Gustavo Selig, presidente da Ademi.

O preço do hectare tem seguido o rastro da soja, não por acaso. Devido à quebra de safra ocorrida no último verão e à demanda externa extremamente aquecida, a saca de 60 quilos do produto vem batendo recordes consecutivos ao longo do último ano. “O preço da saca já passa dos R$ 70 no Paraná. O potencial de rentabilidade dessa cultura é que acaba aumentando o preço da terra”, explica Nadia Alcantara, gerente técnica da Informa responsável pelo estudo. Ela lembra ainda que, além de um patrimônio, as fazendas geram renda.

“Com produtividade média de 57 sacas por hectare e a soja a R$ 70 por saca, um produtor consegue obter receita bruta de R$ 1,6 milhão, em 400 hectares”, calcula. A conta não considera os custos da lavoura, estimados em 60% da receita, nem os gastos com maquinário. Além disso, os preços médios praticados no estado no primeiro semestre de 2012 estão em R$ 55,65 por saca, conforme Secretaria Estadual da Agricultura (Seab).

Negócios parados

Diferentemente do que tem ocorrido nas cidades, o mercado imobiliário de terras do Paraná está com baixa liquidez. Segundo a gerente da Informa, apesar de o preço da soja estar em bons patamares, o investidor considera que é difícil negociar o produto nos picos de preço. Além disso, como o Paraná é considerado um estado com agricultura consolidada, o potencial de valorização da terra é inferior se comparado ao das fronteiras agrícolas, que ainda têm áreas novas disponíveis à agricultura.

Dono de 1 mil hectares em Palmeira (Campos Gerais), Luciano Agottani confirma que os negócios estão parados na região. Ao ver o preço do hectare subindo na mesma proporção que a média estadual, ele diz que a distância entre a fazenda e o asfalto é o que mais influencia o valor da terra. “Está muito caro. Hoje vale mais a pena arrendar. Comprar? Só se for a terra do meu vizinho”, diz ele, que desde 2005 arrenda 200 hectares. Os outros 800 foram comprados pelo pai de Agottani. O quadro de Palmeira é um retrato de todo o Paraná, comenta a gerente técnica da Informa.

Centro-Norte do país atrai investidores

Considerada a nova fronteira agrícola do país, o Centro-Norte tem sido o principal alvo de investidores que pretendem cultivar soja e milho no Brasil. Com um preço por hectare equivalente à metade da média do Paraná, a região conhecida como Matopiba (formada por trechos de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), tem tido forte valorização. Em alguns anos superou 200%, conforme levantamento da Informa Economics FNP. Uma área de alta produtividade para grãos em Uruçuí (Piauí), uma das preferidas dos investidores, custa em média R$ 6 mil por hectare. Há aproximadamente dez anos, os negócios eram fechados por cerca de R$ 500 por hectare.

Nadia Alcantara, gerente técnica da consultoria responsável pelo levantamento de preços da terras, afirma que o novo Código Florestal restringe um pouco o número de negócios nessa região, “mas ainda assim tem sido viável para quem compra”. Em estados como Paraná e Santa Catarina, onde estão as terras mais caras do país, o risco de passivo ambiental é inclusive maior se comparado ao da nova fronteira, revela Nadia. “As áreas no Sul são menores e as aberturas ocorreram antes da década de 70, quando havia outra legislação. Ou seja, existe a preocupação em relação a quanto o dono da terra terá de ser recomposta com o novo Código”, afirma a especialista.

Com cerca de 250 mil hectares na América do Sul, o grupo argentino Los Grobo, é um dos grandes apostadores do Centro-Norte. A Ceagro, braço brasileiro do grupo, já cultiva soja em cerca de 50 mil hectares no país e tem missão de expandir essa área especialmente no Matopiba, onde estão concentradas suas operações, para se consolidar como um dos maiores grupos de produção do continente.

“Nessas regiões, o retorno de investimento na terra pode voltar em uma década, quase metade do tempo necessário no Sul. Além disso, o potencial de valorização do hectare é maior”, afirma Nadia.


Fonte: Gazeta do Povo   Autores: Cassiano Ribeiro e Igor Castanho

0 comentários

Postar um comentário