terça-feira, 24 de julho de 2012

A Pressão na Logística do Milho Brasileiro


Mais pesada do que nunca, a colheita da segunda safra de milho ganha ritmo no Brasil e, com ela, vem o desafio de o país exportar volume recorde e em curto espaço de tempo. Das 34,5 milhões de toneladas a serem despejadas no mercado até o final de agosto, mais de 12 milhões de toneladas podem deixar o país, conforme especialistas. Ainda que essa meta seja alcançada, sobrariam16 milhões de toneladas do produto, o mais alto estoque da história.
O excesso é resultado de uma expansão de 20% nas lavouras de inverno e de mais de 30% na produtividade do grão. Com isso, a produção brasileira da segunda safra de milho deve totalizar 34,5 milhões de toneladas, 60% mais do que no ano passado. Somada à produção de verão, a colheita do cereal ultrapassará pela primeira vez a colheita de soja no Brasil.
No momento em que as máquinas varrem mais de 30% da área plantada com o grão, o Brasil vê um cenário favorável à comercialização: o câmbio sem mantém acima de R$ 2, os preços internacionais e domésticos estão em franca escalada e o clima já não representa mais nenhuma ameaça à produção. Além disso, a aguardada quebra de safra nos Estados Unidos abrirá uma lacuna no mercado internacional e o Brasil é tido como um dos países com maior potencial para suprir o abastecimento externo.
A logística, no entanto, ameaça frustrar os planos do país. No acumulado do ano (jan/jun), as exportações de milho não chegaram a 2 milhões de toneladas, conforme levantamento da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Ou seja, o país precisa embarcar 10 milhões de toneladas do produto em seis meses, às vésperas do plantio da principal safra sul-americana, a de verão. Para o analista Paulo Molinari, da consultoria Safras e Mercado, a meta é perfeitamente atingível, uma vez que quase não haverá soja para embarcar daqui em diante.
Ele lembra, contudo, que, se houver a necessidade de o país embarcar 5 milhões de toneladas em um único mês, como agosto, por exemplo, “nós teremos problemas”. “As tradings venderam muito para junho, sendo que não tinha colheita nesta época. Com isso, acumulou-se os embarques para julho e para agosto”, relata.
Já o analista da Cerealpar Steve Cachia acredita que a deficiência portuária do Brasil é, sim, um fator de risco às exportações de milho. “O momento é de pressão e o desafio é a logística. Nós temos condições de embarcar [a safra de inverno] até o final do ano. Depois, ficará complicado”, diz ele, alertando para o escoamento da próxima safra de soja, no primeiro semestre de 2013, e para a incapacidade de o país exportar os dois grãos ao mesmo tempo. “A cada mês que o Brasil não embarcar o volume estipulado como meta, terá de aumentar o volume nos meses subsequentes. E isso compromete a capacidade das estradas e portos”, acrescenta Irineu Baptista, da cooperativa Integrada, de Londrina.
Embora acredite em perspectivas positivas para o cereal até a definição da próxima safra norte-americana, em mea­­dos de 2013, Cachia considera que os produtores brasileiros poderiam ter aproveitado a valorização das commodities para fechar maior volume de negócios. “Não é todo dia que temos alta de 30% nos preços. Mas não quer dizer que o topo já tenha sido atingido. A situação americana esta muito complicada”, ressalta.
De acordo com a Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab), o Paraná vendeu 24% da produção esperada. Mato Grosso comprometeu metade da sua colheita, conforme dados locais.
Frio e chuva deram tombo na qualidade
Emanoelle Beltran, especial para a Gazeta do Povo
Diferente do inverno passado, quando a produção de milho foi afetada pelas geadas, a safrinha atual resistiu ao tempo frio e chuvoso e traz resultados positivos aos produtores da Região Oeste do Paraná, principal produtora do cereal do estado nesta estação. De acordo com a Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab), o plantio foi 20% maior que o do ano passado, atingindo 2,03 milhões de hectares, e a colheita deve crescer 62%, para 10,33 milhões de toneladas.
Nas regiões de Cascavel e Toledo, que concentram um terço da área plantada no estado, a colheita segue a passos largos e o resultado agrada aos produtores. Com 8 mil quilos por hectare, o produtor Gion Carlos Gobbi, por exemplo, registra produtividade 5% maior.
Os preços são animadores. Da época do plantio para cá, passaram de R$ 22 para R$ 25 por saca no Oeste. Com perda de qualidade, os produtores recebem R$ 20/sc.
A colheita de milho deve ocorrer até o final de setembro. O setor já se prepara para o próximo ciclo. Os preços incentivam o cultivo da próxima safra de verão. Segundo o setor, a expansão só será limitada se os problemas no Porto de Paranaguá, que segue com fila de mais de 120 navios, se agravarem. Além do problema do atraso nas exportações e da perda de confiabilidade do mercado, teme-se que a entrega dos fertilizantes importados ocorra depois melhor período do plantio.

Fonte: Gazeta do Povo , Cassiano Ribeiro

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