quinta-feira, 11 de novembro de 2010

DERMATOMICOSE


Definição
 
É uma dermatite localizada, de caráter crônico, causada pela invasão da pele e pêlos por fungos conhecidos como dermatófitos, que é caracterizada por descamação e perda de pêlos. É também conhecida pelo nome de tinha, ringworm, dermatofitose ou tricofitose.
As perdas econômicas devidas à dermatomicose são baixas, uma vez que a infecção é superficial e restrita à pele, mas a inquietação decorrente do prurido pode resultar em diminuição nas taxas de ganho (Jensen & Mackey, 1974).
 
 Etiologia
 
Os agentes etiológicos são vários tipos de fungos, sendo o Trichophytum verrucosum o mais freqüente em bovinos. O fungo invade e desenvolve-se no estrato córneo da pele e folículo piloso. A hifa divide-se transversalmente dando origem a esporos, que são altamente resistentes, podendo permanecer vivos em estábulos ou baias por longos períodos de tempo. A tinha pode ser transmitida ao homem, devendo ser tomados os cuidados necessários no contato com animais contaminados.
 
Epidemiologia
 
O contato com um dermatófito nem sempre resulta em infecção, pois há uma série de fatores ligados ao animal (idade, nível de resistência imunológica, doenças concomitantes, estado nutricional etc.) que podem favorecer o estabelecimento da doença (Manual Merck, 1991).
A dermatomicose afeta principalmente animais estabulados criados em altas lotações, que favorece a disseminação da infecção, a constante reinfecção e a contaminação do ambiente (Ainsworth & Austwick, 1973). Todas as raças, sexo ou idades são susceptíveis, embora os indivíduos mais jovens sejam mais comumente afetados, principalmente os recém-desmamados, devido a sua condição de alta susceptibilidade. Parece haver maior incidência da doença nos meses de inverno, embora ocorra em qualquer estação. Jensen & Mackey (1974) afirmam que a doença pode chegar a atingir 50 a 70% de um rebanho em condições de confinamento, devido ao grande número de animais e às numerosas oportunidades de contato entre estes.
A doença muitas vezes se manifesta como uma condição benigna que se resolve espontaneamente após um período de seis semanas a três meses, sendo mais persistente quando atinge uma grande área do corpo, quando então pode comprometer a saúde e a condição do animal (Belschner & Marshall, 1984).
 
Patogenia
 
O meio de contaminação mais comum é o contato direto entre animais infectados e animais sadios, embora os esporos possam estar presentes em cercas, postes, cochos etc. A infecção se desenvolve no tecido queratinizado do estrato córneo ou folículo piloso, sendo que lesões superficiais favorecem o estabelecimento do fungo. A penetração do fungo enfraquece o pêlo e causa a sua queda próximo a superfície da pele. A presença de crostas ressecadas, características da doença, decorre do acúmulo de células epiteliais queratinizadas, exsudato do processo inflamatório e de fragmentos de pêlos. Uma infecção prolongada provoca uma reação inflamatória crônica, tanto na derme quanto na epiderme. Lesões próximas aos olhos podem progredir para uma queratoconjuntivite não específica (Jensen & Mackey, 1974).
A forma circular característica das lesões é explicada pelo fato do fungo da dermatomicose ser estritamente aeróbio e a formação de crostas levar à morte do mesmo no centro da lesão, deixando o mesmo ativo somente na periferia (Blood & Henderson, 1978). O fato da atividade micótica ser queratofílica também explica o aspecto da lesão, visto que o agente não consegue se desenvolver onde a queratina já não mais existe.
 
Sintomas Clínicos
 
O período de incubação varia de uma a quatro semanas, com manifestação das lesões principalmente na cabeça, no pescoço e no períneo, podendo, se não houver tratamento, se alastrar para outras regiões e envolver grandes áreas do corpo do animal.
As lesões características são circulares, circunscritas, medindo de 1 a 3 cm de diâmetro, podendo estar desprovidas de pêlos ou cobertas por crosta de coloração acinzentada ou amarronzada, que se projetam ligeiramente acima da pele. A superfície abaixo da crosta é úmida e hemorrágica nos estágios iniciais, mas, quando as cascas caem, a lesão está seca e desprovida de pêlos. Prurido não é comum, embora freqüentemente os animais apresentem sinais de irritação. Em casos mais severos, particularmente em bezerros e animais jovens, a lesão tende a coalescer e a pele torna-se espessa e pregueada (Belschner & Marshall, 1984).
O curso da doença é de aproximadamente quatro meses. Animais recentemente recuperados apresentam resistência temporária à reinfecção (Ainsworth & Austwick, 1973; Jensen & Mackey, 1974).
 
Achados Histopatológicos
 
Há presença de um processo inflamatório crônico na derme e epiderme. As células epiteliais do estrato córneo estão aumentadas numericamente e paraqueratóticas. O acúmulo de células forma curtas projeções papilares acima do nível da pele. Micélios filamentosos são freqüentemente detectáveis entre as células do estrato córneo da pele e do folículo piloso. Em alguns folículos, bainhas de esporos rodeiam o pêlo, que enfraquece e quebra quando penetrado pelo micélio. Microabcessos podem ser encontrados na epiderme e na derme. Linfócitos, macrófagos e pequeno número de neutrófilos acumulam-se em torno do folículo piloso.
 
 Diagnóstico
 
Geralmente as lesões são características o suficiente para o diagnóstico. A confirmação laboratorial pode ser feita através de raspados, biópsia ou cultura da pele. Das técnicas descritas, a menos utilizada é a de cultura, uma vez que devido ao lento crescimento dos fungos, são necessárias muitas semanas até a identificação final. As amostras de raspados devem ser coletadas nas regiões mais periféricas das lesões e enviadas ao laboratório em envelopes, pois segundo Blood & Henderson (1978), vidros hermeticamente fechados podem favorecer o crescimento de fungos não-patogênicos.
 
Diagnóstico Diferencial
 
Deve ser feito para com a dermatofilose, lesões focais de sarna, alguns tipos de papilomatose ou outras infecções cutâneas.
 
Tratamento
 
Existem dúvidas quanto à validade do tratamento para a dermatomicose em bovinos, visto que a doença é, normalmente, autolimitante e a recuperação espontânea é comum. O tratamento, se bem executado, terá como objetivo reduzir a extensão das lesões e limitar a disseminação da doença, através da redução da contaminação ambiental (Blood & Henderson, 1978; Belschner & Marshall, 1984).
Muitos tipos de tratamentos tópicos podem ser usados, mas para uma maior eficácia, todos devem ser precedidos da retirada das crostas, com auxílio de escova de cerdas e água morna. As soluções devem ser esfregadas com intensidade nas lesões, sobretudo nas regiões periféricas. Aplicações de soluções fracas de iodo (1-2%), a cada 1-2 dias, têm alcançado bons resultados. A griseofulvina (10 mg/kg PV/7 dias, VO) tem sido considerada útil, embora seja antieconômica. Guth & Grunder (1990), em tratamento à base de tiabendazol (10, 15 ou 20 mg/kg, 5-10 dias) em 200 bovinos de várias idades, conseguiram a cura de 95% dos animais em seis semanas após o início do tratamento, não havendo diferenças entre as dosagens.
Alguns produtos têm-se mostrado auxiliares ao tratamento em função de seu efeito imunoestimulante. Anil et al. (1992) demonstraram o uso do ivermectin no controle da dermatomicose em bezerros com sinais visíveis de infecção, através de dois tratamentos (200 m g/kg PV) com intervalo de uma semana. Siqueira (1987) relata que animais que receberam levamisole juntamente com produtos antifúngicos, recuperaram-se mais cedo do que aqueles que só receberam o produto antifúngico. O zinco (5 mg/kg PV, IM) também tem sido usado para promover alguma proteção e auxiliar a recuperação de animais doentes (Bires et al., 1989).
Em rebanhos onde a infecção atinge um grande número de animais, o tratamento deve ser feito à base de pulverizações ou banhos. O Captan® (N-triclometil-mercapto-4-ciclo-hexeno-1,2-dicarboxamida), fungicida de uso agrícola produzido pela I.C.I. do Brasil S.A., tem sido recomendado como um dos produtos mais eficazes para este tipo de uso. A dosagem recomendada apresenta variação de acordo com o autor. Jensen & Mackey (1974) e Blood & Henderson (1978) indicam o uso em concentrações de 1/300-400, 4-7 litros/an., em dois tratamentos com intervalo de duas semanas entre eles. Ristic & McIntyre (1981) recomendam uma solução 1/200 a cada quatro dias, em seis tratamentos. O Manual Merck (1991) indica 1/300, durante cinco dias e depois semanalmente até o desaparecimento dos sintomas.
O ácido paracético também tem sido usado em soluções de 2-3% (0,5 litros/an. em duas aplicações com intervalo de sete dias) para o controle da infecção (Gonzales et al., 1987).
 
Prevenção
 
O isolamento e tratamento imediato dos animais afetados assim que forem observadas as primeiras lesões, juntamente com a desinfecção do local e dos utensílios utilizados no manejo destes animais, são as principais medidas para o controle da dermatomicose.
Uma dieta correta, com suplementação adequada, principalmente de vitamina A, para animais jovens em confinamento, pode ser considerada como uma medida auxiliar, visto que a susceptibilidade à infecção é maior nos animais subnutridos (Blood & Henderson, 1978). 

Fonte : CNPGC EMBRAPA

0 comentários

Postar um comentário